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  • Foto do escritorMariana Candeia

A NATUREZA DOS RITOS

A vida ritualiza a si mesma em diversas formas.

Através de nosso corpo, através do corpo da Terra, eventos cósmicos, muitas vezes “invisíveis”, atravessam o cotidiano permitindo que nossos centros internos de gravidade nos movam, nos deslocando de um lugar para outro.

Mesmo sem estarmos disponíveis suficientemente para observar, essas ritualizações são reais e estão presentes o tempo todo. A respiração, é um exemplo que estamos, constantemente, ritualizando a vida. Quer estejamos conscientes ou não, ao fim de cada exalação somos capazes de convidar o Espírito outra vez a entrar.


O RITO MARCA.

Um rito de passagem denota uma ritualização intencionada para conduzir um processo de transição. Um rito de passagem tem um propósito de marcar, destacar uma mudança de paisagens que, naturalmente, se apresenta no nosso território interno do amadurecimento.


Em culturas originárias, o atravessamento de distintas fases do desenvolvimento costuma ser acompanhado de ritos onde uma linguagem particular, celebra o aparecimento de novas formas de sentir, pensar e participar dentro da comunidade. Tradições indígenas brasileiras trazem uma riqueza fascinante nestes processos, destacando a importância de tarefas culturais e ecológicas que devem ser cumpridas em cada fase do desenvolvimento humano (físico, psíquico e espiritual). A amplitude dos diálogos e mitos que caracterizam esses ritos de passagens geralmente se apresentam, para nós — não indígenas- com pouca clareza.


Sendo partícipe de uma sociedade contemporânea ocidentalizada e colonizada, lamento muito ao constatar que perdemos de vista - nos âmbitos intra e inter-psíquicas - não somente a reverência aos processos de transformações que as etapas de amadurecimento na nossa vida naturalmente nos oferecem, como também o distanciamos dos ritos de passagem.

O estilo de vida contemporâneo, não habilita (ou talvez, não “autoriza”) as famílias, até mesmos os avós e avôs, nem a escola ou alguma outra “instituição” a entender a importância de “marcar” a transição pela qual passa uma criança.

A superficialidade cultural em eventos importantes da vida como a passagem da infância para a adolescência, a separação dos pais, o inicio da faculdade, o início da vida “adulta”, um casamento, um divórcio, a morte de um filho, nos extrai o foco no cuidado e, muitas vezes, substituindo o foco desse lugar ritualístico no consumismo: um objeto (ou algo adquirido, objetificado) cumprindo uma função de inaugurar simbolicamente uma etapa da vida (ou seria “status” social?).

Será que é mesmo interessante para uma sociedade capitalista e materialista (como a nossa) criar oportunidades para ritualizar e validar o desenvolvimento, vislumbrando o verdadeiro potencial que as novas paisagens internas nos trazem?

O filósofo coreano, Byung Chul Han, em seu livro: “O Desaparecimento dos Rituais: Uma Topologia do Presente”, traz a reflexão sobre essas pausas, como um respiro necessário para a auto-regulação. Ele destaca que quando a gente se acostuma a passar de um lugar para o outro sem o rito, se torna um pouco mais difícil para entender (intrapsiquicamente) que estamos passando de uma fase para outra. Neste mundo do ilimitado, encontrar pausas e silêncio requer um pouco mais de intencionalidade. E, é exatamente pela incapacidade de diminuir o ritmo e não aprofundarmos a atenção, que perdemos a capacidade de conclusão (de concluir os processos, as etapas).

Byung Chul Han aponta esse empobrecimento sócio-cultural, onde estamos o “tempo todo” correndo atrás de uma produtividade alimentada pelas informações, nos viciamos em informação. E, portanto, não criamos o tempo necessário para construir uma narrativa que possibilita a conclusão que esses limiares nos apresentam.

ESSAS PAUSAS SÃO OS RITOS; E OS RITOS, OS CRIADORES DAS NARRATIVAS.

Assim, poderíamos entender, seguindo a linha do filósofo, o que está entre a fase adolescência e a velhice é a vida adulta. Quando acontece as passagens para dentro e fora desta etapa? Se o rito é uma pausa onde eu construo as narrativas… Quais as narrativas que vemos na nossa sociedade (ocidental) contemporânea que descreve o começo da vida adulta?

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Para o ecopsicólogo Bill Plotkin (Animas Valley Instutute), como sociedade, estamos profundamente confusos sobre a adolescência. Não sabemos se é uma forma de vida adulta precoce, de infância tardia, uma mistura de ambas, ou algo completamente diferente.

“Não sabemos como preparar um jovem para o florescimento sexual, independência social, expressão social autêntica, descoberta da Alma ou uma vida de relacionamento interdependente com o mundo mais que humano”.

Da adolescência, passamos para a “vida adulta” e entendemos que ser adulto, na nossa sociedade é, primeiro, atingir uma certa idade, pode ser também aceitar maiores responsabilidades, é de repente poder criar filhos (as), construir uma imagem social importante, comprar uma casa. Na leitura de Bill Plotkin, nenhuma dessas características define uma “Adultividade Verdadeira” (assunto que podemos explorar em outro texto!). A maturidade, e a passagem, acontece quando o(a) adolescente já passou por um processo iniciático que requer o abandono do familiar e confortável.


Isso implica ir de encontro a algo mais profundo, à natureza da alma humana.

E esse é um lugar que assusta muita gente, porque uma parte nossa, sabe que o momento pede para ir mais além, em direção ao centro. É possível que neste processo surja ansiedade, desconforto, depressão, é possível que, movidos pelo medo, adotamos hábitos e padrões que nos mantêm distanciados de cruzar a linha dessa transição, e assim, permanecemos muitos anos mais vivendo na “adolescência”.


Quando a lagarta entra no casulo, ela já passou também por outras etapas de desenvolvimento.

Ao longo da vida rastejante de lagarta ela experimentou expansão, seu corpo se adequou a esse crescimento. Mas, no casulo, ocorre algo muito mais profundo e dramático. O casulo é o lugar onde o corpo dessa lagarta se desintegra literalmente, vira uma sopa. E começa a ativação das células imaginais (Imaginal Cells), buscando formar-se para uma outra estória, ampliando a conversa com esse mundo que está por chegar. A iniciação exige essa desintegração. É um processo solitário, no sentido de que você tem que ir por sua conta.

A transição para uma fase adulta madura envolve dois tipos de entrega: a primeira é abandonar suas crenças sobre como você supostamente deve ser e como o mundo deveria estar funcionando. E segundo: se entregar aos desejos mais arcaicos, de um aspecto “selvagem”, comumente negligenciado de nossa psique humana

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O rito de passagem não é a solução para essa transição. Um rito de passagem não transforma adolescentes em adultos ou “falsos adultos” em verdadeiros adultos.

O Rito de Passagem conduz a pessoa a um processo de iniciação. Ele marca, ilumina, cria espaço interno para “abandonar a pele” e sustentar a nova paisagem que surge:


1. O rito de passagem auxilia o mergulho nos mistérios da natureza humana.

2. Aponta que o que está no cerne desta transição é a descoberta e cultivo de uma relação única, íntima (e mística) com o Universo.

3. Nos presenteia visões, que ajudam a perceber a mudança do centro de gravidade psico-espiritual.

4. Confirma, a nível interno e social, a experiência significativa de um processo de transição.

5. É uma forma psicológica de morrer.

Uma cultura saudável e madura só existe se há indivíduos saudáveis e maduros(as) nela. Desejo que a gente possa refletir mais sobre nossas práticas psicológicas atuais e culturais de forma colaborativa sobre a necessidade de prover suporte real para a sustentação de nossas redes de relações entre as espécies humana e as mais humanas.

As visões espontâneas que se apresentam a nós durante os ritos de passagens são portas de entrada que surgem a partir do silêncio interno, geralmente apoiados por restrição de ruídos (comida, tecnologia, pessoas). Que possamos nos disponibilizar para renascer no silêncio e para um espaço de abertura para uma experiência real do sentido de pertencer e sentir-se pertencente.


Que nos aproximemos dos ritos de passagens, como o vento que desce ritualizando suas canções pelo vale… ou como a água que dispara em sua verticalidade no grande vazio.

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