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  • Foto do escritorFê Chammas

A ALMA E AS DUAS ESFERAS DA ESPIRITUALIDADE

Atualizado: 20 de jun. de 2023

TEM UMA PARTE DA ESPIRITUALIDADE QUE NÃO BUSCA A LUZ

E FOI MUITO ACOLHEDOR DESCOBRI-LA




Descobri minha espiritualidade e comecei a cultivá-la através da prática de Yoga. Comecei pelas posturas e respirações, logo me interessei pela filosofia e de lá cheguei no budismo e na prática de meditação — um caminho que, na segunda década do século 21, vivendo em uma cultura ocidental-urbana, não foi nem de longe exclusivamente meu.


Conhecer essas práticas milenares tão preciosas foi — e ainda é — um divisor de águas em minha vida (tanto que lá se vão 12 anos de prática, sem previsão de parar). Mas depois de um tempo de relação próxima com elas, me dei conta de que até mesmo os caminhos "passo-a-passo" dos Yoga Sutras ou dos ensinamentos de Buda não estavam me apoiando em meus processos individuais.


Com recorrência, eu me sentia muito distante de conseguir praticar ideias como a não-violência (ahimsa), o desapego (aparigraha) e o contentamento (santosha) e isso me frustrava muito.


Achava algumas das ideias muito utópicas e pouco aplicáveis ao cotidiano. Sentia falta de recursos que me ajudassem na praticidade das relações do dia-a-dia, com minhas particularidades.

Rodei, rodei — e sigo rodando — até que entrei em contato com algo que colocou em palavras o que o que eu sentia e me mostrou novas possibilidades.


AS ESFERAS DA ESPIRITUALIDADE

A partir de uma busca de visão e do livro Soulcraft: Crossing into the Mysteries of Nature and Psyche (Artesania da Alma: Adentrando os Mistérios da Natureza e da Psique), de Bill Plotkin, entrei em contato com um outro lado da espiritualidade.


Uma ideia nada nova que, na verdade, também vem sendo cultivada há milênios por povos tradicionais de culturas baseadas na natureza.

Segundo esse olhar, existem duas esferas da espiritualidade que são distintas, porém complementares. Uma é ascendente e a outra é descendente.


A esfera ascendente da espiritualidade é atualmente mais conhecida e praticada no ocidente através de práticas como yoga, budismo e taoismo. É a esfera que trilha um caminho na direção da luz, dos céus, que nos apoia a transcender o ego na busca por quietude, paz e integridade com nossa natureza una com tudo que há. Essa trilha nos coloca em contato com o supramundo — um plano superior de consciência e existência.


A esfera descendente da espiritualidade foi a novidade para mim. Essa esfera nos leva na direção da sombra, não da luz; da terra, não dos céus; e, de acordo com Bill Plotkin, “nos leva não a Deus, mas ao escuro centro de nós mesmos e aos fecundos mistérios da natureza”. É um caminho que vai direto nas profundezas dos nossos anseios, nos levando a mergulhar no submundo — um plano mais profundo e mais denso de nossa consciência e existência


Quando li sobre isso pela primeira vez, alguma coisa em mim — essa falta que sentia em minha busca espiritual — se sentiu muito acolhida e contemplada.

Pouco a pouco, fui entendendo que essa descida aos fecundos mistérios da natureza significava acessar e me familiarizar com lugares meus que não são bem-vindos na vida cotidiana da minha cultura e com os quais eu não estava entrando em contato através do cultivo da espiritualidade ascendente.


Me dei conta de que me sentia distante dessas partes minhas tanto quanto me sentia distante do que entendia por natureza.


ESPÍRITO E ALMA

Apesar de muita gente usá-los de maneira intercambiável e de seus significados nem sempre serem muito nítidos, na prática de Artesania da Alma, Bill Plotkin os discerne e os define bem diretamente.


“Espírito é a manifestação do universo que unifica todas nós e tudo que existe no mundo.” — Bill Plotkin, no livro Artesania da Alma

É o que comprova que eu, ser humano, sou feito da mesma energia criadora que tá manifestada numa semente de pêra. É a origem única de tudo, que faz com que toda e qualquer existência esteja conectada e seja interdependente.O espírito é a busca que fazemos no caminho ascendente, no caminho da luz.


“Alma é a manifestação do universo que individualiza cada uma de nós.” — Bill Plotkin, no livro Artesania da Alma

É o que faz com que a semente de pêra saiba buscar por água e nutrientes, saiba criar raízes de pêra, crescer um tronco, dar folhas de pereira e oferecer pêras como um de seus presentes para o mundo — diferente de um caroço de manga.


Da mesma maneira, nossa alma é o que traz nossas instruções originais e carregam, em última instância, as informações para que cada uma de nós possa materializar no mundo os presentes que viemos aqui entregar.


“Alma nos mostra como nós, individualmente, somos diferentes (de uma maneira que apoia a comunidade) de qualquer outra pessoa. Espírito nos mostra como não somos diferentes de qualquer outra coisa, como somos um com tudo que existe.” — Bill Plotkin, no livro Artesania da Alma

CULTIVANDO UMA RELAÇÃO COM A ALMA

Como um ser humano, tenho uma consciência que, ao mesmo tempo que é minha maior bênção, por me permitir reconhecer as maravilhas da vida, é também minha maior maldição, pois não me deixa acessar facilmente as informações que minha alma carrega.


A Artesania da Alma (Soulcraft) é uma abordagem baseada na natureza que bebe de muitas fontes e tem me ajudado a entrar em contato com essa manifestação da natureza que me individualiza, a alma, e aprender a deixá-la guiar minhas ações no mundo.

Cultivar uma relação com a alma tem me exigido, como pré-requisito, muito trabalho de amadurecimento do ego — o que me traz, de novo e novo, a meus lutos, minhas raivas, meus medos, minhas projeções, minhas expectativas de ser salvo, meus traumas.

Através da prática Artesania da Alma, tenho aprendido a buscar também na natureza selvagem (seja em meu corpo, em minha mente ou na natureza mais ampla) o acolhimento para questões, desafios e dores que, apesar de humanas, formam um conjunto de experiências particular à minha história.


E pouco a pouco, estou vendo diminuir a diferença entre o que chamava de prática espiritual e minha relação com o mundo natural.

Sigo praticando yoga, sentando para meditar e buscando me conectar com minha unidade com toda a existência, mas descobrir essas práticas baseadas na natureza e entrar em diálogo direto com o selvagem tem me trazido novos recursos para aprender a viver essa vida, com essa alma, nesse corpo.

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